SOBRE A MEDICAÇÃO PSIQUIÁTRICA.

INTRODUÇÃO.

            Desde os primórdios de sua história, a Humanidade lança mão de algum produto ingerido com o objetivo de alcançar uma modificação em seu funcionamento mental.

            Este recurso sempre esteve atrelado a condições especiais de associação ao Poder em rituais principalmente de natureza religiosa, de aliança entre homens e deuses, etc…

            Assim, álcool e drogas foram os primeiros psicofármacos descobertos e utilizados…

            Na medida em que foram desenvolvidos os conhecimentos médicos, surgindo os diagnósticos das doenças mentais, vieram os primeiros medicamentos, com o nascimento desta área especializada na indústria farmacêutica, afirmando-se sobretudo no início do século XX.

            Nesta evolução, ao longo de décadas, surgiram ampliações nos conceitos diagnósticos e oferta de medicamentos, graças a novos avanços na investigação psiquiátrica e pesquisas farmacêuticas.
Isto trouxe, também, maior diversidade nos chamados efeitos colaterais da medicação (efeitos indesejáveis).

MEDICAÇÃO COMO RITUAL MILAGROSO.

Como citado acima, a Humanidade há milênios sempre buscou “algo para tomar” que a colocasse ao lado dos deuses, acima de qualquer sofrimento.

            De alguma maneira isto ainda se mantem em nossas mentes…

            Uma evidência é a cotidiana repetição dos fenômenos da automedicação e da busca de prescrição orientada pelos balconistas de farmácias.

            Até a propaganda de medicamentos em Tv, onde é apresentado o quadro da doença e o medicamento, terminando com “se persistirem os sintomas, procure o seu médico”, é uma demonstração desta busca e oferta de “divindades salvadoras”.

            É também comum encontrarmos pessoas que se sentem mais fortes (quase divinas) ao afirmarem “Sou contra estes medicamentos, etc”. No entanto, estas pessoas aceitam e pedem anestesias, onde os mesmos medicamentos são usados.

MEDICAÇÃO COMO RECURSO NA DEFESA DA SAÚDE.

            Qualquer medicamento, antes de chegar ao uso humano, é o resultado de um longo processo de investigação e testes diversos, sob a orientação de cientistas competentes e responsáveis.

            E, na Psiquiatria, o uso destes medicamentos é feito sob fiscalização e controle rigorosos.

            Qualquer medicamento pode apresentar reações adversas. Pois, como produto químico poderá encontrar no corpo do paciente um reagente causando reação de natureza indesejável. Mas, isto é muito raro, felizmente.

            A questão é escolher entre tratar ou não tratar uma doença.

            Isto exige uma decisão do profissional médico e do paciente em sua liberdade pessoal. E os dois são responsáveis por suas decisões!
Se a decisão desta dupla, médico e paciente, é favorável a tratar a doença, cria-se uma ALIANÇA TERAPÊUTICA, um compromisso contra os sofrimentos do paciente.

REAÇÕES DIANTE DOS EFEITOS INDESEJÁVEIS DOS MEDICAMENTOS.

Muitos pacientes buscam ler bulas, para conhecer o que estão tomando.
Isto é saudável, porque reforça a sua responsabilidade e liberdade.

            O que não é responsável e nem livre, é quando o paciente encontra a citação de efeitos indesejáveis e revolta-se contra seu médico, abandonando o tratamento ou mesmo nem sequer iniciando-o.

            Outra atitude, igualmente negativa, é também a revolta e abandono da “aliança terapêutica”, quando surge algum efeito indesejável.
Nestas duas situações acima o paciente perde a sua liberdade e não assume a sua responsabilidade de se tratar.

            É importante saber que em muitas doenças mentais A EVITAÇÃO DO TRATAMENTO É UM DOS SINTOMAS DE GRAVIDADE MAIS PREOCUPANTES na Psiquiatria.

            O procedimento correto, se a leitura de bula incomodar ou acontecerem efeitos indesejáveis, é voltar imediatamente ao seu Psiquiatra e tratar do assunto diretamente com ele. Se isto não for possível, deve-se procurar outro Psiquiatra para esclarecer o assunto e tomar as medidas necessárias na defesa de sua Saúde.

            Pois, muitos dos acontecimentos na Saúde física das pessoas que usam medicação psiquiátrica não têm nada a ver com estes remédios.

            Há pessoas que engordam, emagrecem, sentem diversos tipos de reações físicas e atribuem isto somente aos medicamentos psiquiátricos. Inclusive, chegam a abandonar seus tratamentos sem buscar o contato necessário com seu Psiquiatra para esclarecer o que se passa e defender sua Saúde.

            As reações físicas e emocionais podem surgir por um grande número de razões não relacionadas com os medicamentos psiquiátricos.

            O importante é o paciente NÃO SE PRIVAR DO DIREITO AO BEM ESTAR DE SUA SAÚDE e sempre procurar seu Psiquiatra para esclarecer o que se passa e tomar as devidas providências em seu próprio benefício, protegendo seu tratamento orientado por Profissionais Médicos!

 

O CÉREBRO E SUAS NECESSIDADES.

Os avanços mais recentes na área das Neuroimagens estão provando que a doença mental está diretamente relacionada com o funcionamento do cérebro. E também acompanhando os efeitos causados pelas medicações no funcionamento cerebral as neuroimagens poderão futuramente dimensionar informações sobre evolução e duração de tratamentos..

            O objetivo do medicamento é “normalizar” os funcionamentos alterados no próprio cérebro. E este processo demanda um tempo necessário para a restauração desta normalidade..

            A experiência tem demonstrado que os efeitos dos medicamentos nos sofrimentos do paciente são mais rápidos do que a “normalização” do cérebro.
Há muitas doenças onde estes efeitos são de poucas horas ou dias.

            A melhoria de ideias, sentimentos e comportamentos é sinal de que o tratamento pelo remédio “está no rumo certo”. É uma “resposta inicial”.

            Mas, isto não significa que a “normalização” no cérebro está completada. E a medicação deve prosseguir até a próxima avaliação pelo seu Psiquiatra.

            Por isso, é necessário o acompanhamento periódico pelo Médico Psiquiatra.

            Por outro lado, não se deve acreditar que a doença “já passou” apenas porque o paciente já não se sente e nem se comporta “como doente”.
A suspensão ou modificações dos medicamentos psiquiátricos deve sempre ser orientada pelo médico.

            Pode trazer complicações sérias a suspensão sem orientação médica.

SUPERSTIÇÕES E VERDADES REFERENTES AO USO DESTES MEDICAMENTOS.

            Existem superstições criadas a respeito da medicação psiquiátrica, como:
Dependência: em geral, nenhum destes remédios cria dependência física. Pode acontecer uma “dependência psíquica”, se não houver o devido acompanhamento do seu Psiquiatra.

            Risco de morte se tomar bebida alcoólica: se isto fosse absoluta verdade não seriam usadas pelos anestesistas no socorro aos acidentados alcoolizados.

            É evidente que é indesejável o consumo de bebida alcoólica, mesmo que apenas socialmente, quando se toma medicação psiquiátrica.

            E, também, existem verdades a serem respeitadas:

            É fundamental usar estes medicamentos somente RECEITADOS PELO SEU MÉDICO, preferivelmente o seu Psiquiatra.
Jamais seguir indicações de qualquer outro profissional que não seja Médico ou usar o que alguém oferece, sem passar pelo seu Médico!

            Podem acontecer reações individuais, embora muito raras, que merecem atenção e, às vezes, a intervenção médica.

            Por isso, o desejável é que o uso destas medicações seja iniciado em dias nos quais o paciente esteja sem atividades profissionais, sem dirigir veículos e sem bebidas alcoólicas, se possível.

            Porque, assim, ele poderá observar se aparece algum efeito indesejável (mesmo os menos incômodos) e tomar as providências necessárias, orientado pelo seu Médico.

            E, mesmo que não surjam efeitos indesejáveis nos primeiros dias, podem surgir posteriormente. Ao menor sinal disso, o paciente deve procurar imediatamente o seu Psiquiatra ou o Médico que possa substitui-lo no momento.

Outro assunto refere-se ao sexo.

            É desejável que o paciente organize suas atividades sexuais de maneira a pratica-las ANTES de tomar a medicação do período do dia. Por exemplo; se uma medicação deverá ser tomada à noite, será preferível toma-la DEPOIS da prática sexual. Pois, o efeito imediato do medicamento pode reduzir o interesse sexual.

CUSTOS DOS MEDICAMENTOS.

Alguns medicamentos podem ser muito caros.

            Por lei constitucional, os brasileiros têm direito ao fornecimento pelo Estado dos remédios receitados por seus respectivos médicos.

            O uso deste direito constitucional é desconsiderado quando os medicamentos são suportáveis.

            Mas, existem os medicamentos muito caros e às vezes de uso prolongado (“de uso contínuo”) que são inacessíveis ao paciente.

Para atender a estas situações temos duas alternativas:

            1 – Existem as chamadas Farmácias de alto custo, que podem ser procuradas diretamente pelos pacientes ou através da Saúde Pública (SUS), garantindo o aviamento das receitas, mediante o preenchimento de formulários específicos.

            2 – A via judicial, onde o paciente procura um Promotor de Justiça e expõe sua situação, diretamente ou através de um advogado.

A FALTA DE MEDICAÇÃO NA SAÚDE PÚBLICA.

            Infelizmente, o fornecimento de medicação isenta de pagamento na Saúde Pública ainda sofre interrupções por razões diversas.

            Mas, isto não deve ser razão para o paciente ficar sem tratamento.

            Ele deve retornar ao seu médico e pedir ajuda, geralmente com a troca de medicação por um equivalente, além da execução de seus direitos de cidadania, onde o brasileiro doente tem direito a cobrar do Estado o seu tratamento completo, onde se incluem os medicamentos.